Querido Luís,
Tenho pensado infinitamente como vou fazer isto. Testo as
palavras vezes sem conta, escolho-as milimetricamente para facilitar o
processo, para mim e para ti. Depois, ponho-me em frente ao espelho para que
tudo seja coerente: o olhar pesado, mas compreensivo, os gestos seguros, mas
reconfortantes. Logo a seguir me apercebo de que não serei capaz de te magoar,
de te fazer sofrer desta forma. É duro demais.
A minha mãe sempre me ensinou que “a escrever é que a gente
se entende”. Existe toda uma facilidade de expor os sentimentos numa carta;
fica tudo arrumado e controlado, como sabes que aprecio e respeito. Assim consigo
controlar as lágrimas sem que penses que estou a ter pena de ti. A pena que
sinto é que as coisas não tenham resultado para nós, que todos os planos tenham
falhado. De certa forma, sinto pena de mim mesma, por não saber dar-te aquilo
que queres e que sei que precisas.
Por outro lado, tenho a perfeita consciência que não existe
nenhuma maneira bonita ou apresentável de fazer isto. Não é só dizer que não te
amo mais, mas mostrar-te que amei, que os 5 anos que passámos juntos foram
importantes para mim e que isso não passou. Como saudosista que sou, sinto-me
ainda mais presa àqueles momentos bons que passámos, a todas as manhãs em que
acordei feliz ao teu lado, a todos os dias em que o teu abraço era suficiente.
O meu lugar favorito continua a ser a curva do teu pescoço, onde a inocência se
une com a força que tens para vencer o Mundo. Continuo a admirar-te como
ninguém.
A razão para o Amor ter acabado? Não sei. Sinceramente não
sei. Na verdade, nem sei se acabou. Pelo menos, eu não o sei dessa maneira.
Amenizou a chama, mas isso já se sabia, principalmente depois de todo este
tempo. Nunca me iludi pensando que seria para sempre, nem tinha ideias de
grandeza. O conceito de que “para cada panela existe uma tampa” é antiquado e
só para pessoas pouco informadas, ou que acreditem em histórias encantadas. A
minha explicação é bem mais simples, mas também mais dolorosa: um dia acordei e
já não me imaginava contigo para o resto da vida. E isso é algo que, desde esse
dia, não consigo simplesmente apagar.
Afasto-me por saber que é o melhor para nós. Não quero, de
maneira alguma, atingir o ponto em que ignoro o que sinto, rejeito o teu beijo
ou não suporto que me toques. Quero manter este carinho bonito que sinto por
ti. Sei que me vais odiar depois desta carta. Vais acusar-me de tudo aquilo que
sempre te chamei nas nossas discussões e depois não vais perceber nada. Eu sei.
E respeito a tua dor, por isso me afasto.
Não penses que sou egoísta; só quero que fiques bem. Ou se
calhar sou. Bem, é como queiras, desde que isso te apazigue a alma. Não gostava
que ficasses com raiva de mim, mas se é assim que tem de ser... Que assim seja.
Só espero que um dia tudo isto passe e que consigas ser meu amigo, como sempre.
A palavra como pretexto não vai existir, mas podes crer que
lamento. Para já, fica um até breve. Ou ainda melhor, até quando me conseguires
sarar.
Um beijo,
Helena

que linda carta e com lucidez, como se deve estar quando tomamos uma decisão tão importante tanto quanto sabermos escutar os nossos sentimentos. Parabéns
ResponderEliminarTer coragem para ouvir o coração e procurar a felicidade deve ser visto com valor.
ResponderEliminarObrigada pelo texto :-)
Obrigada eu pela visita e pelo carinho!
ResponderEliminarParabéns pelas frases escolhidas e pelos sentimentos com raciocínio. "Uma carta maravilhosa"!
ResponderEliminarÀs vezes é difícil pôr os sentimentos com sentido lógico, mas o mais complicado acaba por ser assumi-los com convicção 😊 obrigada eu pela visita!
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