Quando era pequena, os meus pais não queriam que eu crescesse. Só dessa forma consigo entender porque é que tinha uma empregada interna e acompanhamento a tempo inteiro. Queriam que eu tivesse o melhor dos melhores cuidados e que nunca me sentisse sozinha ou desprotegida. Para mim, não era a minha empregada, era a minha amiga.
Na escola, os outros miúdos tinham a sesta programada para as tardes, mesmo depois de almoço. Eu não fazia isso. A minha amiga ia buscar-me à hora do almoço para vir ter com o meu pai e, depois de ele sair para o trabalho, dormia em casa, resguardada de todo o mal que podia existir lá fora. Na escola, não apanhei os bichos da cabeça, mas ganhei outros. Pensava que o Mundo lá fora era mau se não tivesse a minha amiga por perto. E adquiri também uma intoxicação alimentar com a comida caseira, que me deu a tão marcada apendicite-grave-com-peritonite-e-tudo, dores enormes e uma história para contar.
Nas tardes de Verão, no entanto, o calor era demasiado para dormir e queria aproveitar o bom tempo para poder fazer o que gostava. Por isso, se estivesse no Porto, ia até à praia com a minha amiga. Íamos a pé, felizes, mesmo que demorássemos três quartos de hora a caminhar. Ela contava-me histórias, perguntava-me coisas e ria-se muito com as palermices que eu fazia, propositadas para ouvir aquela gargalhada sincera que ela tinha.
Depois, eu chegava à praia, corria e brincava, fazia castelos de areia impenetráveis com os amigos que fazia por lá, mesmo que fossem imaginários. Brincava muito sozinha e gostava disso, da liberdade para criar a minha imaginação sem fim. Na volta da praia, parávamos sempre no mesmo senhor dos gelados, que ficava mais ou menos a meio do caminho para casa. Não me lembro do que é que a minha amiga pedia, mas eu escolhia quase sempre o mesmo, um picolé de água gelada e de sabor artificial, intenso e tão doce como essas memórias desse tempo.
E, apesar de ter muitas outras histórias de tardes de Verão, tão diferentes como as idades que as representam, este é o sabor que guardo com maior carinho.



Que bonita partilha Raquel! A tua "amiga" deve ser um marco muito importante na tua vida para o todo sempre.
ResponderEliminarNo meu caso era mais do genero: ir para a praia com os meus primos (unica menina) e amigos da rua descalços pelas ruas de Quarteira e a tocar às campainhas pelo caminho e fugir :D Quando chegavamos à praia passavamos a tarde a saltar para o mar das rochas... Crescer no meio de tanto "moço marafado" fez-me uma pessoa forte (ok, com alguns toques de maria-rapaz heee!)
Tão bonito este texto :) Beijinho
ResponderEliminarEscusado será dizer que tens um blog fantástico não é?
ResponderEliminarBeijinhos
http://annluckindarkdays.blogspot.pt/
Que detalhes tão bonitos, querida Raquel! Aliás, como tudo aquilo que por aqui (e por ali) partilhas.
ResponderEliminarNão tens que agradecer nada. Faço com o maior gosto e o maior dos orgulhos do mundo! Partilhar coisas bonitas, com significado, profundas. Resultado de um sonho que agora pode ser lido e (re)lido várias vezes. Estou muito feliz com o meu DOZE!
Um beijinho enorme e grato por te ter conhecido
Sara Cabido | Little Tiny Pieces of Me