Eunice era uma mulher distinta, alta e elegante, forte no seu posto elevado. Saiu do Brasil que lhe dera o berço com apenas doze anos, numa altura em que gostava de contradizer os seus pais com a determinação que lhe era tão comum. Tinha aprendido com a vida a não ser saudosista, mas a verdade é que muitas vezes se lembrava daqueles tempos em que o calor reforçava a vontade e o ritmo pausado. Era tudo muito mais calmo e nunca havia correria para nada. A vida ia-se levando, lenta e calmamente, um dia de cada vez e sem grandes preocupações.
Era o dia dois do segundo mês do ano, gélido e sombrio, quando pisou pela primeira vez o solo português. A vida na Europa previa outras possibilidades para um crescimento sustentado, uma ambição desmesurada que levou os seus pais a fugir do Brasil, em busca da extensão do património. Sempre se imaginou num lugar animado e cheio de vida, e nunca havia sentido tanto frio na vida, algo que a sua pele estranhava com todo o vigor. O seu pai era oriundo duma aldeia no Norte de Portugal, uma daquelas em que todos se tratam por “menino” e “menina”, mesmo que já tivessem carregado muitos anos. Ignorava o cheiro a lenha queimada, a terra molhada e os vários animais que a casa do Ti António albergava e admirava-se até nos mais pequenos detalhes, que costumava desmerecer na sua criancice.
Naquele mundo insólito para si, ela sentia-se presa no seu sentimento de revolta. Era um grito permanente que gostava de conseguir calar pelo bem-estar dos seus pais, que sempre estiveram habituados ao conforto e que, lá mesmo no fundo, só lhe desejavam o melhor, uma vida regada de bons costumes, mas a verdade é que todas aquelas normas eram-lhe mais estranhas do que o sítio onde estava e iam contra a sua natureza humilde. Escolhia as horas mais inusitadas para mergulhar os seus pés na terra fria e ansiosa por mais um dia de trabalho, no meio do pomar que adorava visitar durante a noite. Era o seu momento de fuga e rebeldia, com os pés sujos a pulsar de vida, que em silêncio depois escondia da irmã reprovadora dos seus quereres fora das regras.
Resguardada do mundo e protegida pela posição social que o dinheiro da família havia acartado até então, o seu desejo mais secreto era fugir de casa para um sítio bem mais movimentado do que aquele ao qual inadvertidamente tinha vindo parar, e queria estudar, formar-se e ser alguém na vida sem ter de depender de ninguém. Frio e calculista, o seu pai Virgílio sabia que tinha de fazer tudo para lhe limitar os sonhos e comparava-a constantemente à sua irmã Olímpia, que, sendo mais nova, acatava todas as ordens sem sequer o olhar nos olhos.
Olímpia nunca fora assim revolucionária, e era obediente às suas causas, que julgava serem maiores e mais nobres do que todas as outras. Tinha oito anos quando voltaram e uma estatura sempre muito pequena e resguardada, com uns olhos azuis e uma tez de porcelana. Era muito mais bonita do que Eunice, mas não conseguia comparar-se ao seu temperamento bravio, o que lhe dava uma certa feiura e fragilidade desinteressante. Refugiava-se nos seus inúmeros livros em francês e nas aulas de piano que tanto a entusiasmavam, sentindo um alívio enorme quando se viu naquela aldeia no centro de Portugal, a quietude que a sua alma ansiava. Dedicou-se à religião que os pais aplaudiam e que a acompanhavam, visitando a igreja da vila mais próxima às sextas e sábados, que ficava exatamente a cinco mil, duzentos e sessenta e três metros da sua casa. Sempre que podia e conseguia, arrastava Eunice consigo, já que não estava autorizada a fazer aquela distância sozinha, e aproveitava as caminhadas que fazia até lá para contar os seus passos e ir treinando o seu discurso com o padre Xavier, por quem tinha uma paixão assolapada. Era o padre mais novo de sempre naquela paróquia, mas, ainda assim, velho demais para ela, com cerca de vinte e três anos de diferença entre eles. Ela sabia que aquele era um amor platónico e impossível, penalizando-se constantemente por senti-lo, e tentando sempre esconder-se no terço que repetia vezes sem conta, deixando o seu desejo bem secreto e pedindo penitência pelos seus pecados carnais. Talvez Eunice se apercebesse dessa sua loucura inocente, mas também evitava ao máximo fazer estes passeios religiosos por não sentir ser esse o seu caminho, por achar tudo isto demasiadamente aborrecido. Foi o início do desamor entre as irmãs, notoriamente tão diferentes.
Era o dia dois do segundo mês do ano, gélido e sombrio, quando pisou pela primeira vez o solo português. A vida na Europa previa outras possibilidades para um crescimento sustentado, uma ambição desmesurada que levou os seus pais a fugir do Brasil, em busca da extensão do património. Sempre se imaginou num lugar animado e cheio de vida, e nunca havia sentido tanto frio na vida, algo que a sua pele estranhava com todo o vigor. O seu pai era oriundo duma aldeia no Norte de Portugal, uma daquelas em que todos se tratam por “menino” e “menina”, mesmo que já tivessem carregado muitos anos. Ignorava o cheiro a lenha queimada, a terra molhada e os vários animais que a casa do Ti António albergava e admirava-se até nos mais pequenos detalhes, que costumava desmerecer na sua criancice.
Naquele mundo insólito para si, ela sentia-se presa no seu sentimento de revolta. Era um grito permanente que gostava de conseguir calar pelo bem-estar dos seus pais, que sempre estiveram habituados ao conforto e que, lá mesmo no fundo, só lhe desejavam o melhor, uma vida regada de bons costumes, mas a verdade é que todas aquelas normas eram-lhe mais estranhas do que o sítio onde estava e iam contra a sua natureza humilde. Escolhia as horas mais inusitadas para mergulhar os seus pés na terra fria e ansiosa por mais um dia de trabalho, no meio do pomar que adorava visitar durante a noite. Era o seu momento de fuga e rebeldia, com os pés sujos a pulsar de vida, que em silêncio depois escondia da irmã reprovadora dos seus quereres fora das regras.
Resguardada do mundo e protegida pela posição social que o dinheiro da família havia acartado até então, o seu desejo mais secreto era fugir de casa para um sítio bem mais movimentado do que aquele ao qual inadvertidamente tinha vindo parar, e queria estudar, formar-se e ser alguém na vida sem ter de depender de ninguém. Frio e calculista, o seu pai Virgílio sabia que tinha de fazer tudo para lhe limitar os sonhos e comparava-a constantemente à sua irmã Olímpia, que, sendo mais nova, acatava todas as ordens sem sequer o olhar nos olhos.
Olímpia nunca fora assim revolucionária, e era obediente às suas causas, que julgava serem maiores e mais nobres do que todas as outras. Tinha oito anos quando voltaram e uma estatura sempre muito pequena e resguardada, com uns olhos azuis e uma tez de porcelana. Era muito mais bonita do que Eunice, mas não conseguia comparar-se ao seu temperamento bravio, o que lhe dava uma certa feiura e fragilidade desinteressante. Refugiava-se nos seus inúmeros livros em francês e nas aulas de piano que tanto a entusiasmavam, sentindo um alívio enorme quando se viu naquela aldeia no centro de Portugal, a quietude que a sua alma ansiava. Dedicou-se à religião que os pais aplaudiam e que a acompanhavam, visitando a igreja da vila mais próxima às sextas e sábados, que ficava exatamente a cinco mil, duzentos e sessenta e três metros da sua casa. Sempre que podia e conseguia, arrastava Eunice consigo, já que não estava autorizada a fazer aquela distância sozinha, e aproveitava as caminhadas que fazia até lá para contar os seus passos e ir treinando o seu discurso com o padre Xavier, por quem tinha uma paixão assolapada. Era o padre mais novo de sempre naquela paróquia, mas, ainda assim, velho demais para ela, com cerca de vinte e três anos de diferença entre eles. Ela sabia que aquele era um amor platónico e impossível, penalizando-se constantemente por senti-lo, e tentando sempre esconder-se no terço que repetia vezes sem conta, deixando o seu desejo bem secreto e pedindo penitência pelos seus pecados carnais. Talvez Eunice se apercebesse dessa sua loucura inocente, mas também evitava ao máximo fazer estes passeios religiosos por não sentir ser esse o seu caminho, por achar tudo isto demasiadamente aborrecido. Foi o início do desamor entre as irmãs, notoriamente tão diferentes.

fico à espera da continuação :)
ResponderEliminara paixoneta pelo padre é mesmo verdade? que engraçado :) as tais coisas que só acontecem nos livros ;)
Obrigada Ju! Amanhã há mais um capítulo*
ResponderEliminarA paixoneta pelo padre é daquelas coisas que não sabemos se são verdade, mas que é bem provável que assim tenha sido! ;)
Gostei, Raquel!
ResponderEliminarSinceramente, gostei desta primeira parte. É de leitura natural, embora, a escrita seja cuidada, elegante e escorreita.
Acresce o facto de a protagonista ser inspirada na sua ascendência.
Continuação!
Obrigada!
ResponderEliminarPalavras como estas só me fazem querer fazer mais e melhor! :)
Precisei de tempo para começar a ler o conto com a devida atenção, já tenho três partes para ler, mas em cada um quero deixar um comentário :)
ResponderEliminarPara a primeira parte: sentimento de curiosidade de uma introdução perfeita! adoro os pormenores da descrição "ficava exatamente a cinco mil, duzentos e sessenta e três metros da sua casa.";
"tentando sempre esconder-se no terço que repetia vezes sem conta, deixando o seu desejo bem secreto e pedindo penitência pelos seus pecados carnais. "
com licença, vou passar para a part II :)
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Obrigada pelos comentários certeiros, Ana!*
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